O que o médico pode postar no Instagram?

Enmanuely Soares
O que o médico pode postar no Instagram

Resolução CFM nº 2.336/2023

Entenda o médico pode postar no Instagram e o que mudou na publicidade médica com a Resolução CFM nº 2.336/23. Regras para publicidade médica e como anunciar pós-graduação sem RQE com segurança.

A publicidade médica no Brasil atravessou, em março de 2024, sua maior transformação em décadas. A entrada em vigor da Resolução CFM nº 2.336/2023 marcou o fim de uma era de restrições severas e o início de uma fase de maior liberdade e, consequentemente, maior responsabilidade.

Para o médico que deseja se posicionar no Instagram, as dúvidas são muitas: Posso postar antes e depois? Como divulgar minha pós-graduação sem ter RQE? O que o CRM ainda proíbe?

Neste artigo, vamos dissecar os principais pontos da nova norma, garantindo que você utilize o marketing digital para atrair pacientes sem colocar seu CRM em risco.

1. A revolução do “antes e depois”: regras e limites

Por anos, o “antes e depois” foi o “fruto proibido” da medicina brasileira. A nova resolução finalmente permitiu a exibição de resultados, mas não de forma irrestrita. O objetivo do Conselho federal de Medicina (CFM) foi permitir a demonstração de técnicas, mantendo o caráter informativo.

O que é permitido:

  • Uso de fotos de pacientes: Você pode postar imagens de resultados, desde que o paciente autorize expressamente,
  • Finalidade educativa: A postagem deve vir acompanhada de um texto explicativo sobre a patologia, a técnica utilizada e, principalmente, os riscos envolvidos.
  • Selfies e ambiente de trabalho: Fotos do médico em seu ambiente de trabalho, com equipamentos ou equipe, agora são permitidas e incentivadas para humanizar a marca.

O que continua proibido:

  • Promessa de resultado: Você nunca deve afirmar que o resultado da foto será idêntico para todos os pacientes.
  • Identificação excessiva: Sempre que possível, preserve a identidade do paciente, a menos que a face seja o objeto do tratamento (como na harmonização facial).
  • Sensacionalismo: Imagens chocantes ou que causem medo no público continuam sendo infrações éticas.

Dica jurídica: O uso da imagem sem um Termo de Consentimento específico pode gerar processos indenizatórios pesados, baseados no direito de imagem e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

2. Estratégia no Instagram: o que postar para atrair pacientes?

O Instagram é hoje a principal vitrine para profissionais da saúde. Com a Resolução CFM nº 2.336/23, o médico ganhou ferramentas para competir de forma mais justa com outros profissionais da estética.

Conteúdo de autoridade

Poste vídeos explicando dúvidas comuns. Se você realiza procedimentos como a “mini lipo”, explique a diferença técnica para a lipoaspiração tradicional. Isso demonstra domínio do assunto e educa o paciente.

Repost de pacientes

Agora você pode repostar elogios e fotos de pacientes que te marcaram. Isso gera a chamada “prova social”, um dos gatilhos mais fortes para a conversão de novos pacientes. No entanto, o médico não deve oferecer descontos ou benefícios em troca desses elogios, o que configuraria mercantilização.

Divulgação de preços e promoções

Atenção aqui: A nova resolução permitiu a divulgação de valores de consultas e procedimentos, mas proibiu promoções, sorteios e pacotes de “compre 1 leve 2”. A medicina não pode ser tratada como um comércio de prateleira.

3. O dilema da pós-graduação: como anunciar sem RQE?

Este é o ponto onde mais ocorrem erros. Muitos médicos generalistas investem em pós-graduações de alto nível e desejam colher os frutos desse investimento no marketing.

A regra do RQE (Registro de Qualificação de Especialista)

Para se anunciar como “Especialista” (ex: Dermatologista, Cirurgião Plástico), é obrigatório ter o RQE registrado no CRM. Sem ele, você é, perante a lei e a ética, um médico generalista.

Como anunciar sua pós-Graduação:

A Resolução CFM nº 2.336/23 permite que você liste seus títulos acadêmicos. Você pode colocar na sua bio: “Pós-graduado em Dermatologia pela Instituição X”. O erro fatal: Colocar apenas “Dermatologia” ou “Especialista em Estética”. Isso induz o paciente ao erro e configura infração ética grave.

4. Os riscos do marketing médico inadequado

A liberdade concedida pelo CFM veio acompanhada de um aumento na fiscalização. O médico que abusa do “antes e depois” ou que anuncia especialidade que não possui, enfrenta dois grandes riscos:

Risco ético (CRM)

As Comissões de Divulgação de Assuntos Médicos (CODAME) estão mais ativas. Uma denúncia de publicidade irregular pode levar a uma sindicância e, posteriormente, a um Processo Ético-Profissional (PEP). As penas variam de advertência à cassação do CRM.

Risco civil (justiça comum)

Na justiça, a publicidade médica é vista como uma oferta de consumo. Se você posta um resultado “perfeito” no Instagram, o juiz pode entender que você assumiu uma obrigação de resultado. Em casos de complicações em lipoaspirações, por exemplo, a justiça tem condenado médicos a indenizações vultosas por danos estéticos e morais quando o resultado prometido na publicidade não é alcançado


5. Checklist para uma publicidade médica segura

Antes de apertar o botão “publicar”, verifique:

  1. Tenho a autorização assinada do paciente para esta foto?
  2. O texto explica que os resultados variam e cita os riscos?
  3. Minha bio deixa claro se sou especialista (RQE) ou pós-graduado?
  4. Estou usando termos sensacionalistas ou prometendo cura/resultado garantido?
  5. Meu nome completo e CRM estão visíveis em todas as peças publicitárias?

Conclusão

A Resolução CFM nº 2.336/23 é um marco de modernidade que permite ao médico ser o protagonista da sua própria comunicação. No entanto, a segurança jurídica deve ser o alicerce de qualquer estratégia de marketing.

O médico que se comunica com ética não apenas evita processos, mas constrói uma reputação sólida e duradoura. Se você tem dúvidas sobre como adequar suas redes sociais ou precisa de uma assessoria jurídica preventiva para sua clínica, procure um advogado especializado em Direito Médico.

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